05/12/2020
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Poesia de Ano Novo

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No próximo ano, soterrarei de perdões o meu mal-querer
e de afagos essa sórdida tendência de apostar na desgraça alheia.
Serei dom e não dor.

No próximo ano, porei em prática sábias lições de vida:
pão que se guarda endurece o coração;
a cabeça pensa onde os pés pisam;
o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

No próximo ano, segredarei aos peregrinos os três aforismos de meu bem-viver: Deus tem sabor de justiça;
a vida trafega a bordo do paradoxo;
a morte é verbo e não se conjuga no presente, é sempre pretérito ou futuro.

No próximo ano, cultivarei cada um de meus cabelos brancos, modelarei de gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que maquiam de sabedoria o meu rosto.

No próximo ano, tratarei o semelhante com a reverência dos anjos e lavarei as portas de minha cidade para acolher em festa os que trazem boas novas.

No próximo ano, violarei todas as regras da civilidade torpe que me engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder horas em cuidados supérfluos. Arrancarei do pulso as algemas do relógio que me escravizam ao ritmo implacável de minutos e segundos.

No próximo ano, serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência que recobre de fúria a minha excessiva fragilidade. Confessarei a mim mesmo os meus pecados e, crucificado numa roda-gigante, ressuscitarei com a inocência das crianças que sorriem prenhes de vertigens.

No próximo ano, nomearei para o governo da cidade um cavaleiro que chegue montado num burrico e tenha as mãos calosas como quem cavou as entranhas da terra. Não darei lugar aos príncipes revestidos de palavras vãs, nem porei a minha confiança nos arautos surdos ao clamor dos desvalidos.


Postado em: Quinta-feira, 26 de Março de 2009

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